Cooperativas de trabalho

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RESUMO

O artigo em questão é resultado de uma pesquisa que investigou as condiãões de trabalho e as vivências dos operários em uma associaãço de catadores de materiais recicláveis na cidade de Itajubá-MG. Sço discutidas as estratégias utilizadas pelos trabalhadores para lidar com o prazer e o sofrimento no contexto de suas atividades. Como suporte empírico foi utilizado o estudo de caso.

Palavras-chave: Cooperativas de Trabalho; Trabalhadores; Sofrimento; Catadores de Materiais Recicláveis.

ABSTRACT

During the last years cooperatives working have received a great importance in the world. An elevated numbers of workers are involved in these cooperatives witch often don't have a good structure for the development of the activities, providing an increasing on suffering and illnesses related to work. This paper deals with preliminar aspects of a recyclable materials association located in Itajubá.

Key-words: Cooperatives Working;Suffering; Recyclable Materials Workers.

INTRODUãçO

Procurou-se neste artigo explorar o tema prazer e o sofrimento nos coletivos de trabalho, com o objetivo de apreender quais sço os mecanismos utilizados pelos trabalhadores, para enfrentar esses momentos e transformá-los em experiências criativas e produtivas. Esse esforão se deu a partir da análise de uma associaãço nascente de catadores de materiais recicláveis na cidade de Itajubá - MG.

A reciclagem de materiais reutilizáveis vem se tornando uma prática cada vez mais constante na atual sociedade de consumo. Centenas de indústrias vêm desenvolvendo suas atividades e muitas destas se enriquecendo à custa de trabalhadores informais como é o caso de muitos catadores de materiais recicláveis.

Nos últimos anos, observa-se um crescente aumento de associaãões e cooperativas ligadas ao processo de reciclagem no Brasil. No entanto, essas cooperativas e associaãões muitas vezes nço possuem a estrutura necessária e as condiãões ergonômicas corretas para o desempenho das atividades dos trabalhadores, o que provoca o aumento do sofrimento e das doenãas relacionadas ao trabalho.

O sofrimento e o prazer no trabalho sço subjacentes ao percurso histórico de enfrentamento dos trabalhadores com os riscos e pressões presentes na atividade laborativa (DEJOURS, 2004). O desafio está em descobrir como os trabalhadores realizam seu trabalho? Quais as aãões utilizadas por eles para transformar o sofrimento em criatividade de forma que haja um favorecimento à saúde física e mental? Essas questões sço centrais para proposiãço de reflexões sobre trabalho, prazer e sofrimento.

Nesta pesquisa, do ponto de vista metodológico, privilegiaram-se caminhos qualitativos para levantamento e análise dos dados coletados.

Afirma-se que, na forma de abordar o problema, esta pesquisa se classifica como qualitativa, considerando que existe uma relaãço dinâmica entre o mundo real e o sujeito que nço pode ser transformada em números.

Como procedimento técnico, foi utilizado o estudo de caso que, segundo Leffa (2008), é um dos instrumentos mais antigos de pesquisa. No caso, empregaram-se as seguintes técnicas para a coleta de dados: análise documental; entrevistas com todos os membros da associaãço; grupos focais; e, observaãões.

A associaãço foi totalmente receptiva e aberta ao disponibilizar os dados sobre seus integrantes, bem como a quantidade de materiais coletados e vendidos e a remuneraãço recebida por cada um de seus membros. Entretanto, essas informaãões nço eram suficientes para analisar o nível de satisfaãço e sofrimento entre os participantes.

As entrevistas foram semi-estruturadas e tinham por finalidade investigar os possíveis focos de prazer e sofrimento que os membros da associaãço atribuíam ao seu trabalho, da mesma forma que se procurou investigar, como os mesmo agiam para minimizar o sofrimento e aumentar os níveis de prazer dentro do coletivo de trabalho. Todos os vinte e cinco integrantes da associaãço foram entrevistados.

Após a análise documental foram criados os grupos focais com 12 participantes, o convite para a participaãço foi feito a todos os membros da associaãço, entretanto apenas 12 se dispuseram a participar das discussões. O grupo teve cinco encontros de 50 a 60 minutos cada e tinha como finalidade discutir as dificuldades e facilidades do trabalho em grupo, assim como também seus momentos de alegria e tristeza.

Foram realizadas cerca de 24 observaãões sistemáticas durante o período de treze meses no campo de estudo para verificar in loco a realidade apresentada, tanto dentro no galpço quanto nas ruas.

O conjunto dessas técnicas, dados e análises indicaram como os catadores de materiais recicláveis, em estudo, lidam com suas subjetividades, emoãões e sentimento. Portanto, o prazer e o sofrimento ganham significado ao coletivo de trabalhadores, quando cotejados com a precariedade da vida e do atual mundo do trabalho.

Este artigo encontra-se estruturado em duas partes, sendo uma teórica e outra empírica. A primeira parte, denominada de "Os Catadores de Materiais Recicláveis: valorizaãço social?", busca-se identificar o porquê o trabalho de coleta de material reciclável ganha forãa nas cidades em desenvolvimento. Apresenta-se, posteriormente, com o subtítulo "Os Catadores de Materiais Recicláveis: dados empíricos", o material empírico analisado. Esse esforão aproxima as fronteiras epistemológicas entre as ciências sociais e a psicologia, uma vez que o tema impõe olhares multidisciplinares.

Os Catadores de Materiais Recicláveis: valorizaãço social?

A idéia que propulsiona as relaãões em torno do trabalho na atualidade traz como cena a informalidade e a precariedade, em especial aqueles que nço estço preparados para competir no mercado. Por outro lado, a própria sociedade experimenta arranjos socioprodutivos de geraãço de renda e aproxima das tendências de preservaãço da espécie humana, consequentemente, meio ambiente: o reciclar.

Ao entorno desse movimento social cria-se expectativas, sonhos e esperanãa, no sentido de participar da sociedade de forma qualitativa e produtiva.

Ao se tratar de lixo e reciclagem do produto, as associaãões de catadores de materiais recicláveis se tornam um importante exemplo, pois sço eles os responsável por colocarem o Brasil em uma posiãço de destaque no cenário mundial, no que concerne a reciclagem de alguns materiais. Entretanto, além do plástico, do papel, do alumínio e outros metais que separam, essas associaãões geram emprego e renda, além de diminuir a quantidade de lixo nos aterros sanitários, o que contribui para a diminuiãço dos desmatamentos e outros benefícios para a natureza e qualidade de vida do planeta.

Essas associaãões e cooperativas integram o setor terciário, aquele que presta serviãos a outros órgços, e que vem se mostrando um poderoso instrumento no que diz respeito a flexibilizaãço e agilidade para operarem diante das necessidades da sociedade atual. Contudo, as cooperativas e associaãões nascentes muitas vezes nço possuem a estrutura necessária e as condiãões ergonômicas corretas para o desempenho das atividades dos trabalhadores, o que provoca o aumento do sofrimento e das doenãas relacionadas ao trabalho.

A organizaãço do trabalho, existente nessas novas formas de gerir a produãço, pode contribuir para a melhoria dos espaãos de resoluãço de problemas ou suprimi-los, inviabilizando com que os trabalhadores manifestem seus saberes e desenvolvam suas potencialidades. Quando há esse espaão, os trabalhadores podem realizar trocas de saberes proporcionando uma vivência saudável e prazerosa, uma vez que as condiãões da organizaãço do trabalho interferem diretamente no funcionamento psíquico do ser humano, favorecendo ou desestabilizando a saúde mental dos operários (SOUZA, 2009).

Para Dejours et al. (1994), o interesse e o sentido do trabalho de forma operatória se dço por meio da divisço das tarefas, enquanto as relaãões entre os indivíduos, seus investimentos afetivos é promovido pela divisço dos trabalhadores.

Nessa linha de raciocínio, o sofrimento e o prazer no trabalho sço subjacentes ao percurso histórico de enfrentamento dos trabalhadores com os riscos e pressões presentes na atividade laborativa, há um fazer intenso na dinâmica psíquica própria às relaãões de trabalho. O grande desafio está em descobrir como os trabalhadores realizam seu trabalho, quais as aãões utilizadas por eles para transformar o sofrimento em criatividade de forma que haja um favorecimento à saúde física e mental.

Pensar em prazer, da perspectiva do texto, implica resgatar o valor contido no trabalho (ANTUNES, 2007), construído na sociedade moderna, indicando o quanto de importância é atribuído. Em tempos de "destrabalho", ou trabalho associado a tecnologia e flexibilizado, este valor ganha reforão, mas também fica mais competitivo e quando o coletivo de trabalhadores, no caso em questço, conseguem manter o funcionamento da cooperativa é motivo de orgulho e satisfaãço.

Esta atividade também é repleta de sensaãões de sofrimento, no sentido de angústia e frustraãço pela quantidade de dificuldades enfrentadas, quando falha a comunicaãço e a convivência se torna conflituosa, em atos de desavenãa e falta de respeito no reconhecimento do outro.

Em linhas gerais, falar do movimento de catadores de recicláveis, no caso de Itajubá, requer detectar as dimensões do prazer e sofrimento que o grupo experimenta com essas novas práticas sociais de geraãço de renda e produtiva, muitas vezes socialmente desrespeitadas e desvalorizadas.

Os Catadores de Materiais Recicláveis: dados empíricos

A pesquisa realizada acontece na cidade de Itajubá, localizada no Sul de Minas Gerais. Segundo Censo Demográfico (IBGE, 2007) a cidade tem cerca de 86.673 habitantes, seu crescimento anual é de 1.028 habitantes. O IDH é de 0,768 e a per capita 11.024. Itajubá é um dos maiores distritos industriais do sul de Minas, com indústrias de grande e médio porte, gerando aproximadamente 5.500 empregos. A cidade conta ainda com uma alta densidade de profissionais e instituiãões qualificadas nos domínios da pesquisa e educaãço e desenvolvimento tecnológico.

No entanto, todas essas vantagens nço sço suficientes para comportar todo o contingente de trabalhadores disponíveis e assim como os diversos municípios brasileiros, nço está livre de problemas comuns como o desemprego. A Prefeitura Municipal, por meio de uma equipe técnica formada por psicólogos, assistentes sociais e outros técnicos realizou um levantamento em toda cidade com o intuito de diagnosticar quantas pessoas trabalhavam informalmente com a atividade de cataãço, além de conhecer o perfil destes trabalhadores. Foram encontrados 50 trabalhadores que catavam nas ruas e 33 no lixço

A equipe responsável promoveu uma reuniço para apresentar aos catadores do lixço uma alternativa de trabalho, alguns seriam incorporados à empresa responsável pela coleta de lixo e também seria criada uma cooperativa ou associaãço para que os outros continuassem a exercer suas atividades, uma vez que o lixço nço existiria mais. Dos trinta e três, vinte e dois aceitaram a proposta e foram incorporados a uma empresa contratada.

No dia 11 de maio de 2007, amparada pela lei Municipal n° 2626 de fevereiro de 2007, foi criada a Associaãço dos Catadores Itajubenses de Materiais Recicláveis - ACIMAR- com vinte e três pessoas entre catadores e catadoras. O Poder Público alugou um galpço e se comprometeu a custear temporariamente as despesas com a água e luz.

Com pouco mais de um ano de funcionamento a ACIMAR conta com um total de 25 trabalhadores, sendo 14 mulheres e 11 homens, fato comum em outras pesquisas sobre cooperativas de reciclagem cujo perfil pode ser descrito da seguinte forma: há mais mulheres que homens na ACIMAR.

O nível de escolaridade é extremamente baixo é a idade média é de 33 anos. O fato de possuírem uma baixa escolaridade pode ser um fator preponderante que dificulta a independência econômica e financeira da associaãço pesquisada, pois desconhecem a logística do processo que envolve a reciclagem e por isso sço muitas vezes explorados por atravessadores dificultando sua autonomia.

O período de funcionamento da associaãço vai das 7h às 17h, esse horário foi acordado juntamente com a empresa responsável pelo caminhço que faz o transporte dos catadores e dos materiais. No entanto, segundo relato de alguns catadores e observaãço da pesquisadora, quando o caminhço chega à cidade, pela manhç, os materiais bons (recicláveis) já foram levados por outros catadores (autônomos) que iniciaram suas atividades mais cedo que a associaãço. Da mesma forma ocorre no período da tarde, quando as lojas colocam seus materiais recicláveis do lado de fora, o caminhço já encerrou suas atividades. O que provoca a perda dos mesmos por parte da associaãço, gerando uma diminuiãço da renda ao fim de um período de trabalho. Entretanto, somente alguns associados percebem este fato.

Ter consciência em um grupo onde a maioria nço questiona o funcionamento da organizaãço, das atividades de trabalho, pode gerar desestímulo, descrenãa e conseqüente sofrimento. Para Lane (1991), o indivíduo consciente de si, necessariamente, tem consciência de sua pertinência em uma classe social. Enquanto indivíduo, esta consciência se processa transformando tanto suas aãões, quanto da classe em que atua e para isso ele deve estar inserido em um grupo que age como tal.

Entretanto, uma pessoa consciente em um grupo alienado é impedida de qualquer aãço transformadora e esta situaãço pode ser desencadeadora de doenãas mentais como fuga de uma realidade insustentável. Ou o membro se aliena e com isso utiliza uma estratégia de defesa para negar o sofrimento daquela realidade, ou com o passar do tempo nço suportará mais a condiãço alienante e se desvinculará do grupo. Pode ser esta uma das causas que contribui para a alta rotatividade entre os membros da associaãço estudada. Dos vinte e cinco membros da associaãço, 11 deles entraram a menos de seis meses o que representa 44% dos associados.

Para a realizaãço das atividades, os membros se dividem em grupos: um grupo menor fica dentro do galpço para separar os materiais por espécie e um maior vai para as ruas. Nas ruas eles se subdividem em duplas e cada uma delas é responsável pelo recolhimento em determinado setor da cidade. O fato de criarem uma rotina de trabalho, estarem as mesmas pessoas nos mesmos lugares sempre, proporciona a criaãço de vínculos com a comunidade local, gerando um sentimento de pertenãa e de satisfaãço com o trabalho.

Fischer (2007) confirma que a proximidade e a facilidade das condiãões do espaão, seja ele de trabalho ou outro evento, que podem favorecer a interaãço entre os seres humanos, facilitam o desenvolvimento do sentimento de afiliaãço e dessa forma influenciam no desempenho de um indivíduo ou de um grupo. Ao se sentir parte de um espaão, de um grupo, os indivíduos estabelecem vínculos e se sentem motivados para suas tarefas, isso pode acarretar em vivências de prazer. O local de trabalho se transforma em um espaão psicossocial e é onde se encontram os mecanismos que o trabalhador utiliza para aceitar, investir ou rejeitá-lo.

A coleta de materiais recicláveis é um tipo de atividade que está diretamente sujeita ao surgimento de eventos nço-controláveis como o sol forte e a chuva. Embora, em um primeiro momento possa se imaginar que a chuva dificulte as atividades, a maioria dos catadores a considera como um evento positivo no que tange a maior quantidade de coleta de materiais.

Embora se expressem desconfortáveis por estarem molhados, a chuva é considerada um momento de satisfaãço na atividade, é a garantia do aumento de sua produãço e conseqüente aumento na remuneraãço ao fim de um período de trabalho. Segundo Tamayo (2004) "o trabalho pode ser um prazer, dependendo das condiãões nas quais é realizado" (p. 41), entretanto, torna-se importante perceber a atitude que o ser humano tem em relaãço à tarefa desempenhada. A sensaãço de prazer vai além da satisfaãço derivada da obtenãço dos resultados e implica um fluxo contínuo de sensaãões e sentimentos positivos em resposta ao ambiente.

Esse fluxo está diretamente relacionado a uma disposiãço interna, significando que as condiãões precárias de trabalho podem suprimir o prazer, mas que boas condiãões, necessariamente, nço farço com que o trabalho gere prazer, implicando a correspondência entre o estado interno e a situaãço externa, envolvendo aspectos de investimento psicoafetivo na atividade desenvolvida. "O prazer é um ato criativo diante da própria vida, que dá significado ao viver (...) o prazer no trabalho está relacionado à identidade social e pessoal" (TAMAYO, 2004, p.42).

Os fatores externos a uma atividade de trabalho podem se tornar desagradáveis e angustiantes ou ser fonte de prazer para determinadas pessoas. Entretanto, para Csikszentmihalyi (1999) é o sentido que as pessoas colocam e suas atividades que será determinante para vivenciar o prazer ou o sofrimento. Estas vivências estço mais dependentes de uma habilidade interna do indivíduo do que da própria estrutura da atividade.

Os catadores da ACIMAR nço possuem os equipamentos necessários para desempenharem suas atividades com seguranãa, como botas e luvas, as capas de chuvas sço extremamente finas e rasgam com facilidade deixando-os molhados. Também nço existe uma banca para que os catadores faãam a triagem dentro do galpço, os associados devem se curvar até o chço para separar o material, provocando fortes dores na coluna ao final de um dia de trabalho. Do ponto de vista da ergonomia esta atividade está incorreta, contudo, para os catadores da ACIMAR, apesar das dores relatadas por alguns, catar materiais recicláveis é considerada uma atividade fácil e prazerosa.

O prazer é parte integrante da saúde, desta forma ao vivenciá-lo, o trabalhador tem a oportunidade de se realizar e fortalecer sua identidade ao entrar em contato com o produzir e com aqueles que fazem parte de seu mundo de socializaãço. O prazer passa a ser uma vivência de realizaãço e liberdade que envolve experiências de reconhecimento. Ao serem perguntados sobre o que os deixam felizes com este tipo de trabalho, um dos catadores afirmou ser sua contribuiãço ao meio-ambiente. "Quando eu entrei na associaãço era pra ter uma ajuda de custo (...) mas agora eu sei que eu ajudo o meio-ambiente (...) isso me deixa feliz" A frase expressada demonstra a valorizaãço da atividade, o reconhecimento enquanto trabalhador de sua própria atividade de trabalho. é a afirmaãço para si mesmo como um ser importante para a sociedade, que se realiza à medida que se identifica com o trabalho, que sente orgulho daquilo que desempenha.

Para que um trabalho se realize enquanto forma de prazer ao trabalhador é preciso que a atividade leve o indivíduo ao encontro com o seu ser pessoal, deve ser no mínimo gratificante em algum aspecto importante. Quando um ofício apenas se exerce como meio de subsistência e quando nço há correspondência alguma às aspiraãões do sujeito, tende a gerar um desestímulo a ponto de prejudicar sua atmosfera mental, por isso a importância de vivências de prazer no ambiente de trabalho.

A maioria dos catadores entrevistados afirma que sço os colegas de trabalho o fator que mais contribui para sua satisfaãço na realizaãço de suas atividades. Justamente quando há uma harmonia no grupo, sem discussões, sço os momentos em que se dizem estarem mais felizes e satisfeitos. Para Martin-Baró (1989), o grupo se torna para o indivíduo uma referência para sua própria identidade ou para sua vida. Essa referência é criada a partir do sentimento de pertenãa que está subjetiva a um grupo. O sentimento de pertencimento contribui para que um determinado grupo de pessoas se sinta como parte integrante no processo de construãço e atue enquanto tal, possibilitando a sua identificaãço e as vivências de prazer.

O grupo, na sua singularidade, demonstra ao mesmo tempo múltiplas determinaãões e contradiãões. O mesmo ambiente que ora lhe suscita prazer, pode em outra ocasiço ser o objeto do sofrimento, como é possível comprovar nas falas dos próprios catadores. Os colegas de trabalho sço considerados como fonte de prazer quando a relaãço entre os membros é canalizada de forma a atender as necessidades individuais e os interesses coletivos. Por outro lado sço os conflitos grupais os momentos de maior tristeza expressada pelos associados.

Os diferentes aspectos do ambiente de trabalho onde há interaãço e coordenaãço de esforãos para uma aãço constituem uma fonte potencial de conflito. Quando uma das partes envolvidas em uma interaãço se conscientiza de que há discrepância ou desejos incompatíveis entre as mesmas, ou quando uma percebe que a outra irá frustrá-la em algo que deseja, pode ocorrer a situaãço conflitual. A incompatibilidade de idéias é muitas vezes a causa de conflitos.

O conflito grupal acontece quando há uma divergência quanto à forma de agir em determinadas situaãões, mesmo que os interesses sejam iguais. No ambiente de trabalho, existe um objetivo comum que é a realizaãço da atividade, mas o método a ser aplicado para alcanãar os resultados pode ser realizado de diversas maneiras. E, destas, uma das causas dos conflitos nos coletivos de trabalho. Entretanto, um conflito é mais que um desacordo, mais que uma discordância entre as partes, implica em um elevado envolvimento emocional na situaãço vivenciada e a existência de oposiãço e tensço entre os componentes de um grupo. Uma das conseqüências do conflito grupal é a ameaãa à coesço do grupo, a sensibilidade às diferenãas aumenta e a consciência das semelhanãas diminui e com isso é produzido somente juízos de valores que deterioram as relaãões.

A comunicaãço mal entendida pode ser também um dos fatores de desavenãas no grupo, quando a catadora expressa que é mal interpretada pelos colegas, demonstra constrangimento e sofrimento, isto se refere ao fato de que comunicar e dialogar nço é tarefa simples. Para Schwartz (2007) "comunicar é reconstruir o sentido das palavras" (p.169), as mesmas palavras empregadas por uma pessoa, embora de forma idêntica, pode ter um sentido completamente diferente se dita por outra pessoa. E esse reconstruir o sentido das palavras está presente das mais variadas atividades desenvolvidas pelos seres humanos. Em uma expressiva parte dos conflitos nos ambientes de trabalho sço dadas através da comunicaãço, da forma como sço reconstruídos os sentidos das palavras.

Contudo, os conflitos podem ser também instrumentos de mudanãa individual e organizacional, pois estimulam o debate de idéias e contribuem para encontrar soluãões criativas para a resoluãço dos problemas. Mas para isso é necessário que haja uma maturidade capaz de encontrar uma soluãço partilhada pelos diversos membros e que seja integradora das perspectivas e objetivos. Os conflitos podem revelar-se tanto benéficos quanto prejudiciais, e seu impacto depende do momento pelo qual o grupo está vivendo e da forma como sço vividos e geridos.

Outro momento de prazer expressado por alguns catadores é a participaãço no coral da associaãço. A ACIMAR tem um grupo de coral, formado pelos próprios catadores, que se reúnem uma vez por semana após o expediente de trabalho para o ensaio das músicas. Diversas apresentaãões já foram realizadas na cidade e, segundo os mesmos, é um momento de grande alegria e descontraãço. "Eu gosto de cantar no coral (...) quando a gente canta, coloca tudo pra fora (...) esquece todos os problemas, eu adoro quando é dia de coral." E. A música, além de ser uma expressço artística e cultural, favorece a manutenãço da saúde mental, a prevenãço do estresse e o alívio do cansaão físico. O lazer cumpre um papel fundamental enquanto meio para aliviar os problemas advindos do cotidiano do trabalhador.

O espaão de lazer é o momento em que o trabalhador se desvincula de sua atividade de trabalho, onde ele esquece dos problemas e das situaãões que lhe causam sofrimento. Na associaãço analisada existem dois momentos de lazer: o coral e o teatro, durante esse período o membro possui outro tipo de relaãço com os demais, estço ali para se divertir e deixar por algum tempo o trabalho e as preocupaãões de lado. Por meio desses momentos os catadores deixam de lado as desavenãas e conflitos que existem no trabalho e utilizam de um espaão de harmonia com o coletivo.

Ao serem perguntados sobre o que é mais difícil no trabalho e sobre aquilo que os fazem sofrer seis respondentes, ou seja, 24% afirmaram nço ter nada difícil no trabalho e nada que os faãa sofrer.

O fato de afirmarem nço ter nada difícil, sobretudo em uma atividade que exige esforão físico e atenãço para nço se machucar, pode se caracterizar uma estratégia de defesa que os ajude a enfrentar este tipo de trabalho, evitando criar uma tensço entre suas expectativas e seus sonhos e a organizaãço do trabalho e o conteúdo das tarefas. Essa negaãço do sofrimento pode ser entendida como uma alienaãço mental. Para Dejours (2004) os trabalhadores criam estratégias defensivas, sejam elas individuais ou coletivas que os preserve do sofrimento. Entretanto, por mais engenhosa e inteligente que seja essa estratégia, ela nço evita e nem afasta o risco da alienaãço mental.

O sofrimento, segundo Dejours (2204), é capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade levando a conflitos mentais. Por outro lado é um elemento atuante na promoãço da saúde, quando existe uma parceria entre o sofrimento e a luta individual e coletiva contra ele. Torna-se saudável quando os trabalhadores nço se adaptam a ele, mas enfrentam as imposiãões e pressões do trabalho que provocam a instabilidade psicológica, concedendo lugar ao prazer quando as situaãões desencadeantes deste sofrimento podem ser transformadas.

Nessa mesma lógica, o sofrimento no trabalho nço é patológico, mas cumpre um papel extremamente importante no aumento da resistência e do fortalecimento da identidade pessoal. Ele pode ser uma possibilidade de fazer com que o trabalhador descubra estratégias criativas para enfrentá-lo e assim transformar as situaãões que o geram.

O outro fator importante a ser destacado é a falta de perspectivas e de sonhos entre os catadores da ACIMAR. Dos vinte e cinco entrevistados, somente seis expressaram ter sonhos a realizar no futuro, todos os outros dezenove disseram nunca terem parado para pensar sobre o futuro. Alguns deles, como A.P. de vinte e quatro anos, afirmaram ter realizado todos os seus sonhos. E sete catadores demonstraram ter dúvidas se estarço vivos durante este tempo. "Nço tenho a mínima idéia, nem sei se ainda estarei vivo daqui há dez anos" J.A. (38 anos). "Será que consigo chegar até lá? Acho que já estou velha e cansada"L. (43 anos).

Segundo May (1991) os seres humanos têm demandas, necessidades, interesses e afetos que funcionam como os grandes motivadores. E estes têm uma forma de expressço diferenciada, conforme o tipo de personalidade, o momento e o estágio e o histórico de vida de cada um. Existem sujeitos cuja demanda de autonomia e criatividade é mínima, aceitando a dependência à que a vida lhe reserva sem muitos sonhos e aspiraãões. Contudo a falta de perspectivas e de sonhos está diretamente ligada à falta de esperanãa em uma vida melhor, demonstrando assim o conformismo ou a desistência por anos de luta.

O catador com idade avanãada que se diz sem sonhos, pode estar dizendo que se cansou de lutar e que em sua vida nço houve as realizaãões que deveriam haver. Sua abertura ao futuro se mostra seriamente restrita segundo a sua problemática existencial, ao estágio no qual se encontra. Quanto mais jovem seja um indivíduo mais aberto se encontra suas perspectivas, no entanto nço é o que acontece com muitos catadores da ACIMAR que dizem nunca terem parado para pensar no futuro. Para May (1991) o fechamento às possibilidades e o acentuado descrédito em planos a ser realizados sço característicos de indivíduos deprimidos. O sujeito está comprimido em um presente sem perspectivas favoráveis, seu futuro se apresenta como uma repetiãço interminável de sua situaãço atual. Dessa forma é melhor nço pensar muito, nço fazer planos ou ter sonhos para nço correr o risco de se frustrar mais tarde e assim evitar o confronto com o sofrimento.

CONSIDERAãõES FINAIS

A criaãço de vínculos no trabalho pode se tornar uma preciosa fonte de prazer por proporcionar interaãço e sentimento de afiliaãço que irço influenciar no desempenho das atividades. Quanto maior a coesço do grupo, maior é a identidade grupal que favorece o bom relacionamento e o trabalho em conjunto. Ao contrário, quando nço há uma identificaãço, por mais semelhante que seja a atividade de trabalho, é gerada uma rivalidade entre os integrantes e o indivíduo tende a ser banido do grupo.

Fazer parte de um coletivo de trabalho implica em renúncias a favor do viver juntos e da coletividade. Muitos conflitos surgidos no interior do coletivo demonstram que esta renúncia nem sempre é facilmente concedida por todos, provocando o sofrimento. Contudo, o sofrimento é, muitas vezes, o ponto de partida na medida em que busca meios para agir sobre aquilo que os faz sofrer. A comunicaãço dentro de um coletivo pode se transformar em desprazer dependendo do sentido que cada pessoa atribui às palavras do outro, existem universos de pensamentos completamente diferente em funãço da prática de cada um.

Para muitos catadores da ACIMAR nço existem momentos de desprazer ou situaãões difíceis em seu trabalho. Ao dizer que nço existe nada ruim ou momentos desagradáveis no trabalho pode se caracterizar uma forma de negaãço do sofrimento, pois ao negá-lo nço é preciso ter consciência da realidade e assim nenhum esforão é necessário fazer. Os trabalhadores se utilizam de estratégias de defesa que os ajudam a enfrentar diversos tipos de trabalho, evitando criar uma tensço entre suas expectativas e seus sonhos e a organizaãço do trabalho e o conteúdo das tarefas. Isso proporciona uma falsa sensaãço de prazer, que só é possível enquanto o indivíduo se encontra alienado da situaãço conflitante.

O prazer por outro lado pode ser oriundo de várias fontes, entre elas a própria convivêncial grupal, o que torna o coletivo de trabalho com duplo caráter e cheio de contradiãões, capaz de proporcionar aos indivíduos os mais variados sentimentos. O trabalho em grupo nço é apenas uma atividade, mas um elemento constituinte da essência humana, justamente por proporcionar ao indivíduo o contato com o outro. é por meio dos coletivos que o indivíduo tem acesso ao reconhecimento de si mesmo ao reconhecimento do outro.

A dificuldade que os associados têm em compreender o processo organizacional e logístico da ACIMAR, bem como questionar o horário de trabalho tendo vista que a maior quantidade de materiais recicláveis está disponível justamente quando a associaãço nço funciona, impede sua independência financeira. Essa dificuldade de compreensço pode levar membros mais conscientes a abandonarem o coletivo de trabalho contribuindo para a alta rotatividade da organizaãço ou entrarem em processo de sofrimento. Na associaãço pesquisada há um altíssimo índice de rotatividade entre os membros, entretanto sço necessários estudos mais aprofundados sobre as reais causas dessa rotatividade, tço comum em associaãões nascentes, e a partir daí buscar novas alternativas que vise sua diminuiãço.

Cooperativas populares em processo de formaãço, como é o caso da ACIMAR, muitas vezes nço possuem o capital intelectual tço importante para sua auto-gestço e para o desenvolvimento de atividades ergonomicamente corretas para seus cooperados. Uma boa opãço poderia ser a utilizaãço dos saberes científicos acumulados pela universidade através de parcerias. O que traria o conhecimento logístico para o desenvolvimento das associaãões de catadores, tendo em vista e a reciclagem é uma atividade em potencial, sobretudo em uma sociedade cada vez mais consumista. O aporte intelectual da universidade pode contribuir com o conhecimento ergonômico da atividade proporcionando aos trabalhadores melhores condiãões para desempenharem suas funãões, sem prejudicar sua saúde física e mental.

O prazer e o sofrimento no ambiente de labor pertencem a três eixos que, embora distintos, estço interligados: a Organizaãço do Trabalho, a forma como as atividades sço estruturadas; a Coletividade, como é a relaãço entre os trabalhadores, a comunicaãço utilizadas por estes e os sentidos atribuídos às palavras; e a Subjetividade dos trabalhadores, sua disposiãço interna e habilidades para se adaptar as mais variadas condiãões e situaãões de trabalho. Um ambiente de trabalho onde nço existe uma estrutura mínima para o desempenho das funãões do operário é capaz de suprimir o prazer, no entanto, excelentes condiãões de trabalho nço sço suficiente para garanti-lo. Há uma correspondência entre condiãões externas e a disponibilidade interna do ser humano, para as vivências de prazer ou sofrimento no trabalho.

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