Aldeia Corrego das Telhas

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Consideracoes Iniciais (NUMERAR)

O presente artigo surgiu de minha experiencia de trabalho-pesquisa com os indios Tremembes no municipio de Acarau, distante 235 km da capital Fortaleza. Ate o momento em que escrevo estas linhas, foram seis meses acompanhando as duas aldeias indigenas existentes na zona rural da cidade. Fui contratado como antropologo, na condicao de tecnico do Centro de Referencia da Assistencia Social - CRAS, para atuar exclusivamente nestas comunidades. Assim, a experiencia empirica que substanciou a escrita deste artigo foi produzida a partir do contato semanal com a populacao indigena supracitada. Este contato se deu tanto na esfera coletiva, durante as reunioes semanais realizadas em cada comunidade, quando individualmente, visitava as familias, sendo possivel manter longas conversas com alguns indios das aldeias de Telhas e Queimadas.

O objetivo deste artigo e discorrer sobre a importancia da institucionalizacao organizacional para a afirmacao da identidade etnica indigena dos Tremembes nos dias atuais, sobretudo, com fins de acesso as politicas sociais direcionadas para comunidades tradicionais. Utilizo como base a fundacao dos Conselhos Indigenas das aldeias de Telhas e Queimadas e a importancia que estes exercem como facilitadores no que diz respeito aos projetos, programas e servicos do poder publico nas diversas esferas, direcionados as populacoes indigenas. Antes, porem, se faz necessario um breve relato sobre a historia destas duas comunidades indigenas.

Os Tremembes de Acarau e suas trajetorias (NUMERAR)

Os indios Tremembes tiveram um longo percurso historico ate se estabelecerem no litoral cearense. Segundo alguns antropologos e historiadores, o grupo etnico saiu da Amazônia percorrendo os estados do Maranhao, Piaui ate chegarem ao litoral cearense, estabelecendo-se, principalmente na praia de Almofala, municipio de Itarema[2]. Os registros historicos dao conta da presenca deste povo nos municipios de Chaval, Camocim, Granja, Marco, Acarau e tambem na Serra da Ibiapaba[3]. No seculo XVII, os Tremembes foram aldeados pelos jesuitas na localidade de Almofala e la se estabeleceram ate hoje. A literatura antropologica coloca os Tremembes como eximios pescadores, tendo em vista, que foram aldeados no litoral. Entretanto, diante dos periodos de seca que periodicamente castigam o territorio cearense, alguns grupos foram obrigados a sair em busca de agua e alimento, iniciando uma caminhada e desbravando terras no rumo do sertao. Os Tremembes de Acarau estao inseridos neste contexto. De acordo com as memorias e narrativas de algumas liderancas e idosos, ja existiam registros da presenca indigena na regiao no seculo XIX.

Aldeia Corrego das Telhas

Os Tremembes do Corrego das Telhas estao localizados ha aproximadamente 40 km da sede do municipio de Acarau, estando numa regiao limitrofe com o municipio de Itarema. A historia dos Tremembes das Telhas tem um capitulo comum a todas as comunidades indigenas no nordeste e no Brasil: a luta pela terra. A referida aldeia esta inserida na Terra Indigena (TI)[4] do Corrego Joao Pereira, composta por quatro aldeias (Sao Jose, Cajazeiras, Capim-Acu e Telhas) situadas entre os dois municipios citados acima, sendo que somente a aldeia de Telhas pertence a Acarau. TI Corrego Joao Pereira e a primeira, e ate agora a unica, terra indigena demarcada e homolgada pelo Governo Federal no Ceara. Entretanto, a luta pela terra e os freqüentes conflitos com posseiros e latifundiarios durou quase um seculo, tendo se acirrado nos anos de 1980. De acordo com o relatorio antropologico[5] da Fundacao Nacional do indio - FUNAI, os Tremembes do Corrego Joao Pereira sofreram com a violencia e o poder de grandes latifundiarios (entre eles militares, padres e politicos de Acarau), criadores de gado e comerciantes da castanha de caju que se apossaram e submeteram os indios a um regime de semi escravidao.

Alem de terem tomado as terras que tradicionalmente eram de uso dos indios, os "novos" donos cobravam pela utilizacao da terra, de modo que uma grande parte da producao agricola dos indigenas era direcionada para o pagamento da terra. Alem disso, os Tremembes foram proibidos de praticarem seus rituais, sobretudo, o torem. O movimento de resistencia dos Tremembes do Corrego Joao Pereira se fortaleceu a partir do apoio da Pastoral dos Direitos Humanos, Missao Tremembe[6] e com o reconhecimento da FUNAI, no final da decada de 80. Em 2005 a TI do Corrego Joao Pereira foi demarcada e homologada pelo Presidente Lula.

A aldeia Telhas possui atualmente uma populacao de 134 pessoas agrupadas em 30 familias que vivem numa area de 540 hectares. A TI de Telhas e marcada por uma mata ainda bem preservada, pela presenca de muitos cajueiros e diversas outras especies de arvores. Durante a safra do caju, toda a aldeia se envolve com a coleta da castanha para a venda e com o pedunculo que e utilizado para fazer doces, cajuina e o mocororo, bebida criada pelos indios, uma especie de vinho do caju. O mocororo e um dos principais elementos motivadores da pratica do torem, uma danca de roda em que os indios exaltam a natureza, o trabalho e a relacao que o indio tem com a terra. Alem disso, outro aspecto marcante da danca e o culto aos seres encantados.

Praticamente todos sao agricultores e, alem da renda advinda com a venda da castanha, a producao de farinha e goma e o principal fator de geracao de renda da aldeia. O processo de preparacao da farinha, chamado de farinhada, e feito coletivamente numa casa de farinha comunitaria. No periodo em que estao sendo realizadas, as farinhadas duram varias semanas.

Aldeia Queimadas

A aldeia dos Tremembes de Queimadas esta localizada ha 30 km da sede do municipio e encontra-se bem proxima ao Perimetro Irrigado do Baixo Acarau que compreende uma area que perpassa as cidades de Acarau e Marco. O caminho dos primeiros moradores das Queimadas foi semelhante aos do Corrego Joao Pereira, havendo inclusive, lacos de parentesco entre os membros das duas comunidades. Segundo seu Cecidio[7], o mais velho morador das Queimadas, teria sido seu pai e outros seis homens com suas respectivas familias, que teriam desbravado a regiao onde hoje ocupam. Segundo ele, nos idos de 1927, "os sete" teriam saido da Lagoa dos Negros[8], abrindo caminho mata a dentro, ate que se depararam em um certo momento com uma grande queimada provocada nao se sabe por quem. Foi neste lugar que o grupo resolveu se estabelecer com suas respectivas familias. Diferentemente dos Tremembes das Telhas, os indios de Queimadas travam sua luta contra o proprio Estado, atraves do Departamento Nacional de Obras contra as Secas - DNOCS, que tenta desapropriar a comunidade indigena para ampliar a area do Perimetro Irrigado do Baixo Acarau. Os conflitos comecaram no final dos anos 80, quando o DNOCS alega que ja teria indenizado as familias da aldeia. A comunidade reconhece que uma das liderancas teria recebido dinheiro do orgao federal, mas argumentam que foram lesados. Mesmo a questao estando na justica, o DNOCS destruiu parte significativa do territorio ocupado pelos Tremembes de Queimadas, principalmente a area chamada de Serrote, tida como sagrada pelos indios. O processo continua em andamento, mas com a intervencao da FUNAI e do Ministerio Publico Federal as obras na area indigena foram paralisadas. Os Tremembes de Queimadas aguardam o GT da FUNAI que fara o relatorio de demarcacao e delimitacao de sua TI. Do ponto de vista econômico, as duas aldeias sao semelhantes e desenvolvem as mesmas atividades, tendo o caju e a mandioca como principais fontes de renda.

Como resultado inexoravel do contato com a sociedade envolvente, os Tremembes absorveram habitos e incorporaram praticas e costumes amplamente observados em outros contextos, sobretudo, urbanos. e possivel ver muitas casas de taipa equipadas com som, aparelho de DVD e televisao com antena parabolica. Inevitavelmente, o uso dessas tecnologias e visto como essencial para eles, tendo em vista que para a maioria das familias a televisao e um dos raros meios de entretenimento.

Em relacao aos metodos de producao agricola, a pratica de fazer queimadas e freqüente entre os agricultores das duas aldeias. Como conseqüencia, existem muitas areas de capoeira e a mata nativa, principalmente em Queimadas, foi bastante desmatada. Muitas arvores nativas estao em processo de desaparecimento. Por esses e outros aspectos, constatamos os reflexos do contato interetnico e como ele ressoa nas diversas areas da vida social.

Apesar da renda advinda com estas atividades, a maioria das familias das duas aldeias ainda vive em situacao de vulnerabilidade social. e nesse contexto que se insere o trabalho do CRAS nas comunidades indigenas.

O CRAS, tambem chamado de Casa da Familia, e um equipamento do Ministerio do Desenvolvimento Social e Combate a Fome - MDS, gerido em forma de co-participacao com os municipios, destinado a atender e oferecer assistencia a uma parcela da populacao que se encontra em situacao de pobreza e risco social. Em municipios onde existem populacoes indigenas o MDS recomenda que tenha um CRAS para atender estas comunidades. Alem disso, o MDS tambem orienta que as acoes desenvolvidas em comunidades indigenas seja coordenada por um antropologo ou Cientista Social. e justamente por essa orientacao que fui contratado para trabalhar com os Tremembes em Acarau.

Um antropologo no CRAS

O municipio de Acarau conta com duas populacoes indigenas que ate entao nao contavam com nenhum trabalho socioassistencial especifico por parte do poder publico. Pelo fato de estarem em processo de afirmacao etnica, lutando pelo direito a terra e a insercao em outras politicas sociais, as comunidades de Telhas e Queimadas necessitavam de apoio, no sentido de ajuda-los a se organizarem politicamente atraves de uma instituicao que representasse os interesses da coletividade no que se refere as demandas e carencias existentes nas comunidades.

Neste sentido, no ambito da assistencia social, se fazia necessario a contratacao de um tecnico-pesquisador para que, a partir do conhecimento da historia, da cultura e da dinamica social cotidiana destas populacoes, pudesse auxilia-los neste processo de afirmacao social e politica.

Segundo a Norma Operacional Basica da Assistencia Social - NOB SUAS, o trabalho desenvolvido pelo CRAS com populacoes tradicionais deve ser orientado por um Antropologo. Sobre esta questao, eis o que afirma o MDS:

As equipes destinadas a desenvolver trabalho com populacoes tradicionais (indigenas, quilombolas) ou especificas devem ser capacitadas e orientadas por um Antropologo sobre as especificidades etnicas e culturais da populacao atendida, contribuindo no planejamento, monitoramento e avaliacao dos servicos e acoes. Neste sentido, e importante que a equipe estabeleca interlocucao com as liderancas da comunidade atendida, para legitimar e auxiliar o trabalho realizado junto a comunidade.[9]

Pela natureza de seu oficio, o Antropologo seria aqui o profissional recomendado, tendo em vista que em sua formacao ele e preparado para, a partir de tecnicas e metodos proprios a Antropologia, desenvolver este trabalho especifico. Nesta perspectiva o Antropologo pode ser definido como um tecnico-pesquisador, posto que as atividades que desenvolve, depende antes de observacoes e estudos preliminares para que a partir da configuracao social na qual se depara, ele possa definir estrategias de trabalho e efetivamente propor acoes que estejam de acordo com os interesses da comunidade assistida, respeitando sua dinamica sociocultural, bem como as caracteristicas que definem a identidade etnica do grupo. No caso dos Tremembes de Acarau, a questao identitaria e um componente centralizador e importantissimo para a institucionalizacao organizacional das aldeias, sobretudo quando se tem em vista a busca de melhores condicoes sociais de sobrevivencia. A identidade etnica tambem assume relevancia nos procedimentos e acoes desenvolvidas pelas instituicoes que atuam assessorando ou defendendo os direitos dos indios Tremembes.

Identidades mediadas: o papel das instituicoes indigenistas na organizacao social e politica dos Tremembes de Acarau

A historia dos Tremembes foi marcada tanto pelo sofrimento quanto pela resistencia que os indios tiveram, posto que, mesmo sendo expulsos ou escravizados em sua terra e proibidos de se afirmarem enquanto indios, mantiveram parte de suas tradicoes e sua memoria historica. Segundo Silva (1999), uma grande parte do sofrimento dos Tremembes, tanto na praia, quanto no sertao, em especial os de Acarau, se deveu principalmente pelo desconhecimento dos seus direitos e das instituicoes que poderiam apoia-los na luta pela terra. Foi somente a partir do contato com instituicoes indigenistas como a Missao Tremembe e posteriormente a FUNAI que os indios perceberam a importancia de afirmar e divulgar socialmente sua identidade indigena. De acordo com Castells (2002), o contexto de reelaboracao da identidade etnica das comunidades indigenas em Acarau assume as caracteristicas de uma identidade de resistencia, tendo em vista que ela e formulada pelos atores sociais contrarios a algum tipo de dominacao, criando principios de resistencia.

Ainda sobre este assunto, de acordo com Vale (2005), a atuacao de missionarios catolicos, entre eles, Maria Amelia Leite, fundadora da Associacao Missao Tremembe - AMIT, foi fundamental para a redefinicao do perfil organizacional, das demandas politicas e dos investimentos etnicos dos Tremembes da Varjota, em Itarema. Pode-se afirmar que o mesmo processo ocorreu com os Tremembes de Telhas e Queimadas. Como a FUNAI ainda nao possuia nenhuma unidade administrativa no Ceara[10], o suporte juridico e social foi feito atraves da Missao Tremembe que, por sua vez, mobilizava outras instituicoes para defender a questao dos Tremembes. Vale ressaltar, que no seu convivio com os indigenas de Itarema, Acarau e Itapipoca, os missionarios da AMIT estimulavam as comunidades a afirmarem sua identidade de indios, bem como no retorno de praticas como o torem. Desta forma, nos ultimos 25 anos, a indianidade dos Tremembes foi fortemente estimulada pelos agentes indigenistas que acompanham as comunidades nos municipios citados. Me refiro a indianidade como percepcao e reflexo daquele sujeito que se ve e se sente indio. Segundo Braz (2009), essa indianidade esta relacionada aqueles que, apesar do imaginario social desabonador construido sobre estas populacoes, alimentam um outro sentimento e uma outra atitude diante de sua ancestralidade e faz dela, no mundo hodierno, objeto de auto-estima, dignidade e afirmacao etnica.

Com relacao as acoes do CRAS de Acarau, o trabalho se concentra principalmente na importancia da organizacao politica dos indios a fim de que estes possam ser inseridos nas politicas e programas sociais, sobretudo do governo federal. Neste sentido, o trabalho desenvolvido pele equipe do CRAS, na qual faco parte, consiste no assessoramento das duas aldeias no que se refere a institucionalizacao atraves dos Conselhos Indigenas, bem como na insercao das comunidades, atraves dos Conselhos, nos projetos sociais de geracao de trabalho e renda, assim como naqueles que preconizam a valorizacao da cultura indigena.

O primeiro desafio foi articular o perfil organizacional das duas comunidades que apresentavam situacoes bem parecidas. Ambas nao possuiam qualquer tipo de instituicao juridicamente reconhecida que pudessem representa-los. Existiam apenas as chamadas "liderancas", que sao pessoas que se destacam pela disposicao em representar a aldeia em algum evento e pela autoridade que exercem internamente entre os pares. Entretanto, quando os tecnicos do CRAS iniciaram o trabalho de campo perceberam que as duas aldeias se encontravam fragmentadas, atomizadas e, alem disso, descrentes em relacao a qualquer tentativa de organizacao, tendo em vista que tanto o poder publico, quanto suas proprias "liderancas" nao correspondiam as expectativas da coletividade. Os conflitos de opinioes, as diferencas entre membros da comunidade e a desconfianca em relacao aos lideres foram decisivos para a resistencia das comunidades em aceitar a ajuda dos tecnicos do CRAS. Somente quando o antropologo e a estagiaria[11] conseguiram a confianca das familias e que o processo de organizacao foi iniciado. A partir de reunioes coletivas semanais os problemas internos da aldeia eram colocados, discutidos e debatidos pela comunidade. Os profissionais do CRAS mediavam as situacoes, tentando extrair deles mesmos, as solucoes para os entraves e problemas da aldeia.

Um aspecto freqüentemente utilizado pelo antropologo na epoca era a necessidade das duas aldeias de afirmar sua identidade por meio de uma instituicao que de fato representasse nao so os interesses daquela coletividade, mas que tambem pudesse dar visibilidade aos Tremembes de Acarau. Isso so seria possivel atraves da criacao de um Conselho Indigena. Tais conselhos teriam nao somente de representar os interesses dos indios, como tambem de dar visibilidade aos Tremembes de Telhas e Queimadas diante do poder publico e da sociedade civil.

A partir da criacao dos Conselhos os Tremembes estao se inserindo gradativamente nos projetos e politicas sociais[12]. Alem disso, estao inseridos nos Territorios Rurais de Identidade, estrategia do governo do estado de dividir o estado em territorios, visando o desenvolvimento territorial de areas ligadas por criterios econômicos, sociais e culturais[13]. Dentro da politica dos territorios, o governo estadual estabelece que um percentual dos recursos investidos no territorio sejam direcionados as comunidades indigenas e quilombolas.

Tal estrategia poe em evidencia a necessidade de elaboracao e reelaboracao das identidades etnicas, que no caso dos indios Tremembes tem como reflexo principal a territorialidade. e inegavel os tracos historicos e culturais da indianidade dos Tremembes de Acarau, entretanto, a afirmacao da identidade indigena assume um carater utilitario evidente. Estas comunidades buscam direitos que lhes foram assegurados pela constituicao de 1988 e que ate hoje nao sao cumpridos pelo Estado em suas diversas instancias. Deste modo, o dizer-se e sentir-se indio, manifesta um desejo de acesso, sobretudo, a tao sonhada terra.

Vale ressaltar que um traco marcante que identifica o indio, segundo os proprios Tremembes, e a relacao que este possui com a "mata", a "mae terra", a "mae natureza". Estas expressoes sao facilmente encontradas no discurso dos indios, alias, nao somente na fala, como tambem nas letras das musicas cantadas no ritual do torem.

Alem da terra, a maioria das populacoes indigenas, nao so aqui no Ceara, mas em todo o Brasil, carece de acesso aos servicos essenciais de saude, educacao e oportunidades que lhes garantam meios de ascender da situacao de miseria e abandono em que muitas aldeias se encontram atualmente para uma condicao social mais salubre. Neste sentido, as populacoes indigenas, atraves da mediacao de agentes sociais parceiros na luta pela defesa dos direitos indigenas, tem percebido a necessidade de se organizar social e politicamente. E nesta estrategia, a afirmacao da identidade etnica e de suma importancia, pois ela se configura como avalizadora dos anseios, projetos e demandas das comunidades.

Desta forma, concordo com Silva (2000), quando diz que a definicao da identidade e da diferenca tambem esta relacionada a uma disputa de poder que traduz o desejo de acesso aos bens sociais de ordem simbolica, material e politica. Sendo assim, as identidades sao construcoes do mundo cultural e social, portanto, sao fabricadas. Elas refletem os agenciamentos e as imagens produzidas pelos sujeitos atraves das relacoes cotidianas.

e claro que o sentido de "fabricacao" e "construcao" nao assume um carater pejorativo, pelo contrario, evidencia a capacidade dos grupos, inclusive os indios, de estarem elaborando e reelaborando suas identidades no tempo e no espaco. No caso dos Tremembes e dos demais indios no Ceara, o termo mais utilizado e o da reelaboracao das identidades indigenas, tendo em vista que estes grupos foram perseguidos, oprimidos e forcados a negar/ocultar sua identidade de indio.

Na Antropologia, o movimento de reconstrucao das identidades outrora suprimidas e definido como etnogenese, que segundo Oliveira Filho (2004), e um processo de recriacao cultural, "abrangendo tanto a emergencia de novas identidades, como a reinvencao de etnias ja reconhecidas" (OLIVEIRA, 2004 apud Gomes, 2009).

Esta reelaboracao, por sua vez, acontece num momento historico, politico e social especifico que exige a necessidade que estas identidades sejam afirmadas diante da condicao social particular em que vivem os Tremembes atualmente.

Consideracoes finais

A minha pretensao neste artigo foi de discorrer sobre o caminho que tem trilhado os Tremembes de Acarau atualmente, destacando o processo de organizacao politica das duas aldeias indigenas. Tenho consciencia do carater experimental deste trabalho e acredito que o leitor pode ter sentido falta de outras informacoes que poderiam estar presentes no texto, mas diante do tempo e da proposta do artigo nao foi possivel aprofundar nesta ocasiao.

Tambem nao quis fazer uma discussao teorica mais substancial, tanto sobre a historia dos Tremembes quanto sobre a questao da identidade etnica. Sobre esses temas, muitos trabalhos podem ser encontrados facilmente. Minha intencao foi tentar mostrar como a questao da identidade etnica aparece e como ela e utilizada no cotidiano das comunidades pesquisadas.

REFEReNCIAS BIBLIOGRaFICAS

  • CASTELLS, Manuel. O Poder da Identidade: A Era da Informacao: Economia, Sociedade e Cultura. Vol. 2. 2ª Ed., Sao Paulo: Paz e Terra, 2002.
  • GOMES, Alexandre Oliveira. A saga de Amanay, o algodao, e dos indios da porangaba. In: PALITOT, Estevao. (Org.). Na Mata do Sabia: Contribuicoes sobre a presenca indigena no Ceara. Fortaleza: Secult / Museu do Ceara / IMOPEC, 2009.
  • SILVA, Cristhian Teofilo da Silva. Relatorio circunstaciado de identificacao e delimitacao da Terra Indigena Corrego Joao Pereira/CE. Brasilia: Funai, 1999. 173p.
  • SILVA, Izabelle Braz Peixoto da. Prefacio. In: PALITOT, Estevao. (Org.). Na Mata do Sabia: Contribuicoes sobre a presenca indigena no Ceara. Fortaleza: Secult / Museu do Ceara / IMOPEC, 2009.
  • SILVA, Tomaz Tadeu. Identidade e diferenca: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petropolis: Vozes, 2000.
  • VALLE, Carlos Guilherme do. Tremembes. Povos Indigenas do Brasil - PIB: 2005. Acessado no endereco http://pib.socioambiental.org/pt/povo/tremembe/1659 em 21/02/2010.
  • OBS: AS DEVIDAS CONSIDERAcoES FEITAS OBEDECERAM aS NORMAS DA ABNT E FORAM TAMBEM COSULTADOS MANUAIS DE METODOLOGIA DE LAVILLE & DIONE, BEM COMO ANTONIO JOAQUIM SEVERINO E ANTONIO CARLOS GIL.
  • PARABENIZO PELO EXCELENTE TRABALHO, AS INFORMAcoES POSSUEM GRANDE VALOR PARA OS LEITORES.
  1. Artigo apresentado na disciplina Teorias do Desenvolvimento Social do curso de Especializacao em Gestao de Organizacoes Sociais da Universidade Estadual Vale do Acarau - UVA.
  2. Itarema foi distrito de Acarau, obtendo sua emancipacao em 1984. Desse modo, a literatura faz referencia a presenca dos Tremembes em Acarau. e interessante notar que, atualmente, a maioria da populacao de Acarau desconhece a presenca de indios no municipio, pois a referencia dos Tremembes e a praia de Almofala, que e distrito de Itarema.
  3. Cf. Silva, 1999.
  4. Juridicamente, a constituicao de 1988 em seu artigo 231 define Terra Indigena como aquelas "por eles (indios) habitadas em carater permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindiveis a preservacao dos recursos ambientais necessarios a seu bem-estar e as necessarias a sua reproducao fisica e cultural, segundo seu usos, costumes e tradicoes".
  5. Cf. Silva (1999).
  6. Instituicao indigenista fundada por Maria Amelia Leite que presta assessoria e acompanha a questao da demarcacao das terras dos Tremembes em Itarema, Itapipoca e Acarau.
  7. Depoimento obtido informalmente, mas que se encontra presente no relatorio antropologico realizado pelo Antropologo Sergio Telles Brissac, analista pericial em Antropologia do Ministerio Publico Federal - MPF/CE, em 2007.
  8. A Lagoa dos Negros esta situada no municipio de Itarema. Segundo depoimentos, o lugar teria sido descoberto pelos indios que vinham de Almofala. A referida lagoa era muito bonita e havia fartura de agua, peixe e outros animais que viviam em redor. Os indios contam que ela foi desencantada pelo Paje Joao Cosmo. Como era um lugar bonito e tambem propicio a criacao de gado, pela abundancia de agua, alguns "coroneis" expulsaram os indios e se apossaram do lugar. e nesse exodo que um grupo de indios chega a localidade de Queimadas.
  9. Extraido do site: HTTP://www.mds.gov.br/servicos/fale-conosco/asistencia-social/gestor-tecnico... Acessado em 27/08/2009.
  10. Isso so veio a acontecer em 1994, quando a FUNAI abriu um Nucleo de Apoio Local - NAL no Ceara. Antes disso, o estado estava subordinado a Administracao Executiva Regional - AER da Paraiba.
  11. Me refiro aos colegas Nino Amorim e Raquel Monteiro que me antecederam nesta funcao. Efetivamente, este trabalho com as aldeias de Telhas e Queimadas se iniciou em janeiro de 2009. Em agosto fui contratado para substituir o referido colega que foi convocado para assumir vaga de professor pleiteada em concurso na Universidade Federal de Rondônia - UNIR.
  12. Atualmente, as duas aldeias foram inseridas no Programa de Aquisicao de Alimentos - PAA da Conab, onde irao produzir e vender alimentos para a merenda escolar. Alem deste, ha um outro projeto de avicultura da Secretaria da Agricultura de Acarau em parceria com o Banco do Nordeste - BNB.
  13. De acordo com a Secretaria do Desenvolvimentos Agrario do Ceara - DAS, os territorios rurais sao espacos fisicos geograficamente definidos, onde se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identidade e coesao social e cultural. Cada territorio e gerido por um colegiado, que e formado por representantes do poder publico (municipal, estadual e federal) e da sociedade civil, como movimentos sociais e organizacoes nao governamentais (ONGs). Fonte: http://www.ceara.gov.br/noticias/ceara-quer-criar-mais-seis-territorios-rurais em 20/02/2010.

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